segunda-feira, 11 de julho de 2016

A taça é nossa.

Não tenho só uma taça, tenho um coração. Uma alma. Esta vida. Três filhas. Dois sobrinhos. Um pai. Uma mãe. um irmão. Uma estória, uma canção, um fado, uma paixão. Um grande amor. Vários amores e amigos. Uma saudade imensa. Muitas lutas.

Um orgulho enorme em ter espinha dorsal. Em ser portuguesa. Com ou sem taça. E voto. E grito. E contesto. Mas sou nação emoção. Com todos. Com tudo.

Obrigada aos que nos elevam, aos que se fazem sangue por todos, aos que escrevem, que cantam, que jogam, que pintam, esculpem, dançam, ensinam.

Obrigada aos que choram e se emocionam. Hoje e sempre.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Abraço maior que nós.

Recebi um convite, "gostava muito que viesses cá a casa. É um jantar de amigos. Podes trazer o teu mais que tudo. É depois de amanhã", assim.

Do Twitter, para a vida real. Sair da chuva. Sem rodeios. E continuava "a Ana depois envia-te a morada por DM. Ou liga-te. Dás-me o teu número...".

A chuva parou. O coração explodiu... Pensei nas milhares de vezes que fugi de convites assim. Que ganhara eu? Sim, que com o que perdera poderia eu contar, adivinhar, saber. 

Arrisquei.

Quando abriu a porta recebi o sorriso do mundo. E um abraço maior que eu. Que ele. Que nós.

Recebi um amor puro e duas mãos expressivas. Dois olhos que transportavam estrelas, lagos e luas escondidas. Recebi silêncios de surpresa, recebi amigos, recebi filhos, recebi partilhas e estórias, recebi também comensalidade, a paixão a mil, gargalhadas. Bem estar. Recebi quase tudo.

Saí completa. Prometi voltar. E foi.

Voltei uma e outra vez e da minha casa abriram-se as portas. Da minha vida dei amor e chão que deu sonhos de sonos de final de tarde. E lágrimas de perdas e gargalhadas de vitórias ou conquistas.

E o abraço. Sempre o abraço. Pronto. Cheio. Vivo. 

No final de todo este tempo, nas contas das figas e dedos cruzados, da admiração imensa, do carinho revestido de sensações de saudade, de ajuda, de meio-meio, de caracóis numa tarde de verão, no final de tão pouco tempo, parece que te sei há uma vida inteira, sempre num abraço MAIOR que nós.

Ao Zé. 


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Da surpresa...

Ontem soube-me a muito, sim...quase como reza o poeta.

Irromperam sala dentro aos empurrões e aos gritinhos, que teria de ir lá abaixo...que a Joana estava a chorar. "E muito, digo-te já!".

Lá fui...acalmando os ânimos que isto de ser ambulância em hora de intervalo tem que se lhe diga.

Acerquei-me da garota, que já tinha enxugado as lágrimas, mas que quando me viu decidiu prolongar o "sofrimento" imenso, esgotado num drama quotidiano de um qualquer intervalo escolar.

"Oh querida...que se passou?". Encolhidos os ombros...deu-se a sequela dos abraços. Dos beijinhos.

"Estou cheia de vergonha...podemos falar noutro sítio?" - alarme, meu. Alto, se é para falar em privado...há que afastar as "comadres e compadres" que nem personagens novelescas vão rodeando a protagonista da estória.

"Muito bem, gente linda...agora vou conversar com a Joana, vão lá brincar. Obrigada!". Seguimos caminho.

"Podes trazer a Mariana, ela pode explicar melhor se eu começar a chorar". Que sim, chamei a amiga.

No gabinete, sentadas lado a lado...começaram num queixume atirando toda a responsabilidade daquele estado de alma para um grupo de três.

Uma atiçaria. Os outros ririam.

"Mas que se passou concretamente?", ia eu passando o lenço pela cara.

A Mariana, despachada, muito arisca e sempre de resposta pronta, esclareceu-me de imediato:

- Olha, Andrea, coisas parvas e mal educadas. Imagina só...que não só poderiam ficar por uma ofensa...que avançaram duas! Uma - abriu os olhos - é...que a Joana era prostituta, mas pior...é que diziam que ela é da avenida...das vinhetas mal batidas!!! 

A gargalhada que senti invadir-me o corpo foi tal...que pensei que o meu coração pararia a travá-la.

Perguntei-lhes se entendiam o que seria...já que eu não estava a perceber.

"Oh...entender não entendemos...mas quando a coisa é mal feita, mal batida, Andrea, não há-de ser coisa boa!!!".


quarta-feira, 29 de julho de 2015

O vazio de um todo.

A morte de um filho não é natural. Nunca o será...por mais que o mundo se justifique, as chuvas parem de cair, o sol arrede terras de argumentos. 

A morte de um filho é o princípio de outra dimensão. De um outro estado de alma. De sobrevivência. 

Ontem vi a mãe de um filho que partiu.

E vi nela o que vejo sempre nas mulheres cujo infortúnio é este. O vazio. O vazio de um todo.

Como se do corpo de mulher existisse NADA. Nada de vida, nada de ar, nada de sangue, nada de carne, nada de entranhas, de cheiros, de sabores. Só dor. Só vazio. Só silêncio. E água.

Trazia o corpo pendurado entre si mesmo, na sombra da mulher forte, viva, lutadora que foi. Na sombra da alegria que transbordava, do grito aberto, da gargalhada solta.

Trazia o corpo dilacerado. Os olhos inundados de gritos mudos. O peito esburacado. E água.

Ofereceu-me a água dos olhos como se de chuva se tratasse e eu deixei-me molhar num abraço. 

Aquele abraço de mães cúmplices. Aquele que por mais força que se faça, por mais dentes que se cerrem, por mais palavras que se sussurrem, não se arrepia o vazio, não se alicerça a dor, não se regressa da dimensão nova.

O imenso silêncio. 

E assim continuou...pendurada entre si mesmo, sorvendo da mágoa imensa o olhar caído, arrastando consigo um luto...o primeiro passo de uma outra vida.










quarta-feira, 22 de abril de 2015

Coração a metade...

E hoje levaram a Maria.

Traquina, melada e meiga. Levaram-na depois de muita avaliação, de muita pergunta e resposta, de muita indecisão. E hoje foi o dia escolhido. Surpreendidos que fomos com tudo. Olhem que vieram muitos para a levar. 

A Maria conversou durante toda a tarde com as "pessoas muito simpáticas da associação que ajuda todas as crianças maltratadas". Disse-me sorridente, "hoje vou embora, vou para outra associação. Durmo lá. É um sítio bom.".

E hoje levaram a Maria. A Maria é uma criança que tem sido maltratada por quem a deveria amar mais. Acarinhar mais. Preocupar mais. Proteger mais. Uns dias chorava...outros apenas se sentava no silêncio de quem lhe chove na alma.

Um dia era uma marca de punho fechado. Outra de fivela. O corpo queimado, a mão em ferida. Um dia chorava que não tinha brinquedos. Outro...que havia sido trancada num sótão escuro.

A Maria tem o sorriso mais sincero que conheço e o olhar mais triste que já vislumbrei. Conversou toda a tarde e desenrolou um novelo de milhares de lágrimas.

Chorei eu que as entranhas se retorceram perante tamanha maldade. Choraram os muitos que vieram buscá-la.

E hoje levaram a Maria mas deixaram o Pedro. O irmão que protege. O outro lado do coração. O mesmo sorriso, igual tristeza: agora mais só. Agora sem protecção.

"Pedro, a Maria vai para um sítio e queria despedir-se de ti...". Saltou da cadeira, choveram trovoadas de medos, caíram todas as lágrimas que o mundo construiu para serem choradas. Parou-se o tempo.

Levaram a Maria, deixaram o Pedro. Ele agarrado às costas da irmã. Ela a morder o lábio da saudade.
Eu a morrer um pouco. a calar-me tanto. A desmaiar de dor.

Fiquei a vê-la sair. Depois corri para o Pedro. Abracei-o, dei-lhe colo e disse que o amava. Ele sorriu um sorriso pequenino e triste, encostou a cabeça e segredou-me: A Maria também...e hoje levaram-na.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

a pausa do sonho...

"Hoje sonhei contigo..."

Gritou-se-me a alma acesa de emoções. Todo o mundo entrou em pausa... Sou o sonho sonhado de alguém com os olhos negros, a pele escura, os lábios rosados e o cabelo entrançado, cheio, arregalado. O maior sorriso do mundo sonhou-me. Sonhou-nos?...

- Comigo? Ai que bom!!! Então...mas que acontecia nesse teu sonho?

Que ia viver com ela.

- Eu ia viver contigo...ou tu é que virias viver comigo? - retida que eu estava naquela cadeira da superioridade que lhe ofereceria algo mais... A cadeira da materialização. A cadeira que limita a capacidade de ouvir. De ler. De sonhar.

"Não, tu é que vinhas viver comigo."

Envergonhei-me. Disfarcei...segui.

- E que faria então a viver em tua casa?

O abraço honesto. O carinho... "Brincavas comigo! A minha mãe ia trabalhar, como sempre. A minha irmã...ia lá à vida dela e tu brincavas comigo. A tudo! Tu gostas de brincar!!! E sabes!"

O meu abraço escondeu a felicidade de ser aceite no espaço do sonho. No desejo de ser brincadeira inteira. Na partilha do mundo ideal. O que é habitado só por crianças.

"Hoje tentas sonhar comigo?"

- Sim...hoje vou adormecer a pensar em ti.

A chuva sorriu.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Na minha Caixa de Correio, o sol.

Ontem roubaram-me aos tempos da chuva seca. Do nó na garganta. Dos momentos presos nas reflexões penosas, graves, perdidas em mim. 

Abri a caixa de correio. Daquele espaço saiu a surpresa do sorriso da Catarina, os olhos pestanudos e escuros. Saíram as escadas do Beco da Cardosa, em Alfama, as roupas no estendal, o sol a espreitar pelas arcadas. Dos amantes que roubam beijos nos recantos, do Santo António de Lisboa, do peso da vida, da subida, da inevitável descida. A urgência...a paz.

Ontem a Catarina resgatou-me do silêncio mudo. Trouxe-me até aqui.

Abri a caixa de correio e lá estava o postal prometido. Aquele que transporta o carinho que navega nas redes de quem se cruza virtualmente e cuja a imagem grita todo um mundo de estórias e segredos que não cabem em cento e quarenta caracteres. Nem em mil. Nem em longas conversas numa varanda qualquer. Nem em feiras ou em mudanças, entre colchões e sofás. Nem em posts que se partilham ou em marcas da vida que gravam a mãe.

Ontem a Kooka trouxe-me a alegria de ser eu e a vontade de a tomar nos braços, apertá-la com toda a minha verdade e segredar-lhe:

Também GOSTO MUITO DE TI.

Obrigada, menina. Tu és especial.






segunda-feira, 21 de abril de 2014

O incómodo silêncio...

Calei-me durante um tempo.

Aquele tempo ao qual se confere reflexão ou observação. 

Não. Não foi nada disso...aconteceu o vazio.

Silêncio.

Foi isso que existiu no tempo em que me roubei das palavras deste lado da chuva. Um imenso silêncio perturbador, triste, quase abandonado. 

Deixei que a prosa se prendesse na garganta e que as poucas lágrimas que vertesse se evaporassem no calor da minha pele. A injustiça sobre as inocentes parceiras de luta, de partilha, de amizade...aglutinaram-se e as famílias sufocadas chegam a mim de braços caídos, cansadas, desiludidas, esquartejadas, feridas.

Não preciso que me justifiquem os déficit, PIB, FMI. Esses não respiram, não têm mãos e olhos e boca e chuva dos olhos que cai, de vergonha, desistindo de tudo.

"A Catarina tem uma caixinha onde guardou frango...o frango do almoço, Andrea...e depois foi repetir!", contou-me em sussurro.

A sensibilidade de quem me segredou isto, um coração de seis anos, com  a clareza de quem observa algo secreto, delicado, susceptível de embaraço, foi excepcional.

Dei-lhe um beijo e pisquei-lhe o olho, um obrigada que entre nós serve como pacto e confiança, selando a confissão como única e intransmissível.

Sim...conversei com a Catarina, respeitando o seu inicial silêncio, repetindo que não haveria qualquer problema, que não estava a roubar e que eu só queria ajudar, se a ela lhe conviesse...

Servia para levar para casa...e assim "posso jantar, coordenadora, assim também já dou aos meus irmãos...".

Justifiquem-me agora os déficit, PIB, FMI...

Ficará o meu incómodo silêncio.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Ar de quem-não-está-para-brincadeiras-com-putos e outros "desmanchos".

Há dias que quebram a chuva...que a repartem em muitos mil pingos, que a dividem, que a secam, que a regam de lágrimas.

Há dias que nos recordam as mil razões dos nossos caminhos, das nossas opções, de cada uma das nossas escolhas. Dias únicos, dir-se-ia...

Desde há um tempo que a minha presença na sala de aula é menos constante. Hoje pediram-me que orientasse o Manuel nos TPC, que ele andava "desalvorado", "sem tino", "irrequieto", "prejudicando todos os colegas". 

Entrou na minha sala a medo...com os olhos negros brilhantes, um bocadinho assustado, com ar de quem poderia desatar num choro profundo ou cair inanimado no chão, por suster a respiração. Ar de susto. Ar de bicho perdido.

Fiz então eu, o meu ar. O ar sério...ar de quem-não-está-para-brincadeiras-com-putos!

"O senhor sente-se aí e tire os TPC, se faz favor..." - disse tudo sem olhar para ele e entretanto fui-lhe dando os indicadores todos que estaria muito aborrecida com as suas atitudes, ou apenas as atitudes que o trariam até ao gabinete, nomeadamente o indicador que todos reconhecem: tratá-los por "senhor".

Devagar retirou os trabalhos e receoso foi avançando que tinha contas para fazer.

Sentei-me ao seu lado...e o ambiente foi sendo aliviado. Trabalhou afincadamente e resolveu as contas com calma, da minha parte fui dando as dicas, trabalhando o cálculo mental...e tudo fluiu.

Despachou-se antes dos colegas que trabalhavam na sala ao lado. Percebeu isso quando lhe disse com um sorriso..."Vai ver se é preciso mais alguma coisa e se não for...vais para a sala, brincar!".

Espantou-se e acabou por me confessar que costumava demorar muito para terminar...e até esteve com medo de vir para o meu lado.

- Amanhã posso vir para aqui? Aliás...posso vir todos os dias para aqui? Por favooooooorrrr....

Correu na minha direcção, puxou-me com força e assaltou-me a face com um beijo doce.

- Gosto mesmo de ti. Até quando me tratas por senhor. Não penses que assustas assim tanto.

Na saída....volta-se-me para trás e solta-se em desafio...

- Desmancha-te agora, que eu bem sei que também gostas de mim!


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A vida como ela é...ou deveria de ser.

Hoje caiu-me no colo uma notícia.
Parecia quase como uma mensagem de esperança, uma forma de dizer...ainda se consegue, tu também estás no bom caminho, não desistas de lutar pelo que acreditas.

Sai desse lado da chuva. Fala.

Acordei com uma lufada de ar fresco, com uma mão cheia de valores humanos, pedagógicos, de relação, que raramente vejo reflectidos nas paredes de uma escola. E raramente é muito pouco. 

Aqui está uma prova, clara e simples, que aprender transcende a sua própria definição. É mais do que adquirir conhecimentos, é mais do que desenvolver competências, é mais do que somar saberes.

E ensinar, também.

Nada nem ninguém vive isoladamente. Cada Escola, cada Professor, cada aluno, cada contexto educativo, estará sempre ligado ao que acontece à sua volta, dependerá de uma qualquer convergência, tenderá a seguir a moda que se agiganta. É a vida como ela é...ou deveria de ser.

Resta-me uma última palavra ao meu colega professor, ao meu par que nunca conheci mas por quem tenho profunda admiração, ao Ali Mohammadian, muito obrigada.

Não vos prendo por mais tempo. Emocionem-se...vistam a camisola do que acreditam. Lutem.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O trabalho

"Que tens tu?"

Estava triste o miúdo, encostado à parede parecia perdido em reflexões...

Levantou o olhar, encolheu os ombros, sorriu de lado e abanou a cabeça. - Reconheço em cada canto a profundeza dos sentimentos tristes de quem não consegue entender o mundo complexo dos adultos, que deste lado da chuva nunca um príncipe pequeno de um mundo distante foi esquecido...ou abandonado.

"Eh miúdo giro, que tens tu?...", última tentativa...mas se ele andava por ali a recostar-se...de certo que me quereria algo.

"Estou preocupado porque a avó diz que a mãe também deve perder emprego, o pai já não trabalha há muito tempo, os tios também não... A avó Bela diz que não há trabalho...mas eu nem noto isso, que que cada vez trago mais trabalhos de casa e a professora quando se zanga, também diz que a minha turma é uma trabalheira... A ti vejo-te a andar de um lado para o outro...às vezes a correr,cá para mim...aqui é que está o trabalhinho todo e os do governo não sabem! Não é, Andrea?"

O resto da conversa fica presa nas gotas de chuva e nas partilhas iguais que em seguida proporcionaram. O meu pequeno príncipe precisava de colo, de falar, de ouvir e de um mimo especial, nosso.

Mas deu trabalho...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Dia de limpezas

Bateu à porta e pediu para entrar... Anuí e sorri-lhe como faço sempre. Correu na minha direcção e abraçou-me, levantou a cabeça e disse:

- Sabes o papel dos piolhos? Aquele que enviaste para casa...sabes?

No dia anterior havia escrito uma comunicação para as famílias, no sentido de as alertar para a limpeza da cabeça das crianças, tendo em conta os casos de piolhos e umas queixas levadas a cabo por alguns encarregados de educação. Deste lado da chuva tratam-se as coisas pelos nomes....e isto de andarmos a utilizar as denominações científicas para tocar num assunto tão real e tão conhecido, aborrece-me! PIOLHOS! É assim o nome que toda a gente conhece, ataca tudo o que é cabeça...mais limpa ou menos limpa...e tem de ser tratado! Claro que não redigi o texto assim...mas seria fundamental que  se lhe desse a importância desejada. Muita!

Disse-lhe que sim, que me lembrava perfeitamente do papel...

- Pois...com este cabelinho raso, piolhos não tenho, tenho é cera nos ouvidos. Mas a mãe não tem coragem para limpá-los sem cotonetes e a avó nem vê bem. E eu pensei que tu pudesses ajudar-me. Olha!

Virou-se e mostrou-me as orelhas, sendo que com o dedito ia puxando e repuxando para que confirmasse o estado em que aquilo se apresentava...

- Podes limpar-me isto? Senão ainda me gozam mais na escola...e eu acho que me engano muitas vezes nos ditados por não ouvir bem a professora a dizer as palavras.

Abraço forte, um sorriso...e expliquei-lhe que não ia mexer com cotonetes, mas que lhe limpava tudo com umas toalhitas especiais que tinha comigo.

- Ah, Andrea...que bom!!! É que hoje vou dar fé de tudo!





terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Sexta-feira é dia de Frango Assado

Tem passado o tempo, o dia, a noite...a chuva teima em cair, mesmo quando não inunda ruas, inunda gentes e corações, ansiedades. Abre rios de emoção e enche praças de luta, sede de vitória, devaneios de revoltas mil.

Ontem houve aqui uma manifestação. Se não foi ontem...foi um dia destes. Mas ontem o coração encheu-se-me de saudades do tempo de reivindicar, de se poder apresentar soluções, de gritar o que não está bem e de exigir. Ontem lembrei-me da Escola Democrática. Crítica. Interventiva. Da Escola que reconhece a rudeza dos caminhos, a dureza do trabalho, a continuidade da discussão, o trabalho num todo. O voto. O respeito.

Ontem houve uma manifestação, aqui, no pátio da Escola. Pedia-se frango assado para sexta-feira. Que há sexta é dia de frango assado, batatas fritas e arroz branco. Com ou sem salada. Promessas de recusa em comer, uma espécie de "greve de fome!", gritava a mais agitada de todas. Recebi-os...não todos, mas três. Pedi-lhes que me expusessem as questões...

"Não são muitas, Andrea, é só uma! Sexta-feira...é dia de frango assado. Não é dia de outra comida. É o nosso dia favorito, todos adoramos!" - mexia na barriga e rodava a língua...enquanto os outros dois reiteravam com os olhos brilhantes. 

Sugeri então que fizessem um pedido por escrito, da melhor forma que conseguissem...e eu levaria o assunto à Direcção, com toda a pompa e circunstância que a situação exigia! Anuíram. Que aquele assunto não era coisa para se brincar, as sextas-feiras mexem com a vida de uma criança!

"Mas isto assim ainda nos vai dar trabalho. Isto das manifestações e das greves tem muito que se lhe diga, já estou mesmo a ver...", rematou a Laura, que pensava com toda a certeza que aquilo eram "favas contadas", assim que falassem comigo.

Dez minutos passados e tinha uma folha de Caderno Diário, com um coração no canto...(soube que tinha sido a Catarina a exigir que se colocasse lá esse desenho, para ser meiguinha comigo...) e uma exigência simples:

"Senhores da Direcção, os meninos e as meninas querem frango assado à sexta-feira. Gostamos mais assim. As batatas fritas também podem estar lá. Se não houver salada, não faz mal."

E assim foi... nessa semana e durante uma série delas. Não se quis cá greves de fome. Gente pequena cheia de razão e de vontade de se manifestar. 

Ontem houve aqui uma manifestação. Mas ontem... há muito tempo.  

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

...às vezes...

...às vezes não é dia de dizer muito. 

Não é dia de dar ou receber...não é dia de se ousar ouvir. Às vezes, esse dia prolonga-se pelos tempos e volta, mais forte, mais primeiro, mais perto. 

Às vezes é dia de parar. É dia de deixar a chuva cair e atravessar os caminhos molhados com os pés descalços e a alma nua. 

Às vezes perco-me nas reflexões e acordo com a boca muda e a alma seca. Às vezes nem sei onde parar, onde cair de joelhos fincados na terra...onde perder o bater da vida, onde chorar. Às vezes a revolta seca fontes, a injustiça fecha portas, olhos, sentimentos, razões. O amor.

...às vezes...

...hoje é o dia de todas as outras vezes.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

As pessoas crescidas fazem-no tão pouco.

"Onde vais?...Estás cansado de saber que não deverias estar aqui a esta hora...incrível!.. ... ... (...)"


E deverei ter continuado numa prelecção imensa...sobre a consciência dos deveres e direitos e de como já estamos no final do ano lectivo, de que os tempos de hábitos nos ensinam a estar mais atentos e conscientes, que nunca deveríamos estar sempre a cometer o mesmo erro, e isto e aquilo e assim.

Deste lado da chuva por vezes esqueço-me de ouvir, essa poderosa arma que serve para clarificar posições, saber escutar, esse dom, saber o outro, essa estratégia... No meio de tanta tormenta passada, ou dobrada - não fôssemos nós portugueses de alma e coração - dizia, no meio de tanta aventura gozada ontem (o dia do meu aniversário), hoje, cometi o erro de não prestar a devida atenção à criança que ali estava à minha frente.

Perante uma pausa do meu discurso, sussurrou, quase a medo...:

- Fui colocar na minha mochila, a circular para entregar à mãe... 

O tempo parou. O miúdo, todo suado de jogar futebol no recreio...com os joelhos meio esfolados e as mãos sujas de tanto apanhar a bola, driblou-me num passo de mágica e, em jeito de brinca na areia, rematou certeiro.

O tempo parou e quase secou todas as fontes de chuva.

"Desculpa, António... Não sabia que já tinham a circular para guardar...."

- Não faz mal - sorriu, virando as costas e dirigindo-se para o campo, ainda espreitou de novo.

"Desculpa, meu querido..." .

Ele parou. Como o tempo. Como a água da chuva. Como as gotas que inundam os espaços secos de emoção. Ele parou, virou-se para mim, deu um passo para se chegar mais perto, correu...abraçou-me e disse, apertando-me com toda a sua força:

- Então? Já pediu desculpa... e olhe que as pessoas crescidas fazem-no tão pouco.

E o sol brilhou mais forte.


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Posso pintar um graffiti?...

Este texto não reproduz nada que tivesse acontecido este ano... ou no ano anterior a esse. Esta estória passou-se há tempos, mas de quando em vez assombra os meus dias. Na maioria das vezes faz-me sorrir, outras, traduz-se numa saudade imensa e a chuva da alma cai-me dos olhos em jeito de água salgada.

Era um rapaz, quase como todos os outros que por estes corredores passam..., tinha um nome diferente, um tom de pele com sabor a chocolate de leite, uma boca carnuda, uns olhos pestanudos, grandes, vivos. Quando se ria...tudo se iluminava, mas quando refilava, quando se aborrecia, o que acontecia muito mais do que se poderia prever, tudo nele era explosivo. Os olhos ganhavam um tom cinza, o queixo colava ao peito, a voz era gutural seca agressiva. Os braços cruzavam-se em frente do corpo, como se de um escudo se tratassem e, invariavelmente, a alma chovia-se-lhe pelas janelas do corpo... Pudesse eu fazer um desenho desses momentos que ele estaria rodeado de água por todos os lados. Uma ilha de emoções. 

Como eu. Uma ilha de emoções...mas sem o outro lado da chuva.

Um dia cheguei à sala e disse que íamos fazer umas pinturas! Comecei então a explicar, enquanto preparávamos o espaço, que gostava que explorassem as cores, o corpo, que pintassem a alma, caso considerassem que esta merecia ser pintada, que falassem com a tinta, as mãos, a cara, o cabelo. Mas havia regras... Ninguém podia pintar casas, nuvens, o sol, a relva, o céu, flores, árvores... Ou pelo menos, em boa verdade, "ninguém podia pintar aquelas coisas todas da maneira como sempre pintavam". Tinham de encontrar outro traço, outra textura, nova comunicação.

A emoção fervilhava, sentia-se, via-se. 

"Podemos pintar com as mãos?", que sim... "Posso pintar um graffiti?c"

Podes, pensei..., "podes, sim...mas repara...que graffiti vem de grafito, que é uma pintura na parede..., aqui vamos usar o papel, as mesas, tinta de água..."

"Mas posso desenhar mesmo o que eu quiser, como se fosse um 'gajo' dos grafitties?"

Sorri. Olhei para ele e disse-lhe que podia ser ele próprio e desenhar o que bem quisesse...desde que se sentisse bem...

Começou por pintar tudo negro, disse-me que aquilo era a noite...depois colocou um ponto branco e contou-me que era assim que via a lua, com as mãos cheias de amarelo ia pintalgando o preto da base, chamou-me e segredou-me aquilo eram os sonhos que se separavam dele quando tinha medo. Pegou num pincel cheio de tinta vermelha...começou a chorar e sussurrando:

- Isto é o sangue que eu vi...antes de fugir. Era muito.

Ao trabalho, chamou-lhe saudade.

Abracei-o e beijei-lhe o cabelo...milhares de vezes, nem sei contar quantas. Desde esse dia, sempre que se aborrecia...pedia-me para pintar. Cada traço, um pedaço de vida.

Hoje, nem sei que fará...mas espero bem que continue a ser um 'gajo' que fala com a cor, que cheire a chocolate de leite, que tenha as pestanas cheias de emoção e que o amarelo dos seus sonhos, nunca mais se separe dele. 




quinta-feira, 18 de julho de 2013

Não se está à espera...

Era um grupo enorme...discutia-se a vida.

Aproximei-me devagar...como quem gosta de ler as conversas da gente pequena que é, regra geral, grande nos sentimentos, na justeza, na clarificação.

"O João gosta dela...mas ela não gosta dele. E ele é giro!"

"Ela é paneleira....só pode..."

Toda a gente deitou as mãos à boca e os pés tremeram de ansiedade, muito por me verem ali.

- O que é "paneleira"? - perguntei em jeito de provocação...

As caras coravam...e o cheiro a manteiga que ainda tinham nas mãos tomava conta daquele espaço de corredor, o autêntico "corredor da má língua" que as línguas mais aguçadas adoram explorar.

- Então...? - invocava eu, com o ar de quem não sabe mesmo nada sobre qualquer assunto que ao coração e ao corpo diga respeito.

"Paneleira é uma mulher que faz panelas....acho eu...", sussurrou cheia de medo a mais pequenina que ali estava...e que trazia calçadas umas socas de tacão para ficar do tamanho da amiga.

- Hum...pode ser, pode... mas então, quem é que faz panelas aqui no ATL?

Risos e mais risos...muitas gargalhadas coloridas e a cara mais redonda que eu já vi, toda salpicada de sardas, disse-me em tom de malícia...

"Oh Andrea..., paneleira é uma rapariga que gosta de outra rapariga... Não sabias?"

- Hum.........não não sabia. Sei sim que é uma rapariga que faz panelas ou lava-as... mas... ainda assim...se fosse uma rapariga que gosta de raparigas, onde estava o problema? Isso é que eu não entendo...

Encolheram os ombros... e o António desabafou enfim... "porque não se está à espera, só isso... Não se está à espera..."

E, de facto, essa é a razão... não é socialmente expectável e aceite. Até que os tempos mudem, até que as mentalidades evoluam.

O que aconteceu depois guardo para mim...que deste lado da chuva gosto de reservar algumas delícias para vos contar mais tarde.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A poesia

Escondida na chuva de hoje...remexi no baú das memórias e encontrei um grito de apoio que um dia teci...

Foi um apelo, foi um abraço...enviado a Mia Couto...aquando da sua Carta Aberta ao Presidente Bush... 

A carta do Mia...podem encontrá-la aqui, a minha...partilho-a agora.


"Meu caro Mia Couto

Permita que o trate assim. Afinal já nos conhecemos há muito tempo, isto é, eu a si… E através de si e dos seus livros, as suas estórias, vou revisitando a terra que um dia também foi minha, essa terra pobre, também ameaçada sem se saber porquê, talvez hoje tão ameaçada como outra terra qualquer.
Queria agradecer-lhe por ter escrito, a carta que escreveu, ao sr. Bush e sobretudo e principalmente porque o fez de forma aberta o que permitiu que eu e muitas outras pessoas a lêssemos e, assim, dela tivéssemos conhecimento. Pela minha parte, eu senti que a carta também me era dirigida, como se de alguma forma aquela guerra também dependesse da minha opinião, que não dei, de um gesto meu, que não fiz, de um movimento, que não esbocei, de uma vontade, que não exprimi.
Claro que todos nós temos consciência que não era a sua carta, nem a minha, nem muitas outras que provavelmente foram escritas e endereçadas a quem deveriam ser, que iriam impedir que esta guerra anunciada se fizesse. Claro que todos nós sabíamos que nem o Conselho de Segurança das Nações Unidas, nem a Comunidade Internacional no seu conjunto, teriam força para a evitar. Claro que todos nós, que não temos os meios tecnológicos e os altos recursos técnicos como impeditivos das relações humanas, todos nós que vemos em qualquer pessoa o nosso semelhante e não percebemos em nome de que bandeira, ideologia ou critério uma morte ou um mutilado é menos ou mais importante do que outra morte ou mutilado, todos nós, dizia eu, prevíamos assustadoramente que os exemplos de dor, sofrimento e destruição não seriam considerados como preço suficientemente alto para a travar. Mas ainda assim, e apesar de toda essa tomada de consciência, a sua carta, meu caro Mia Couto, comoveu-me.
Comoveu-me e despertou em mim esta vontade enorme de lhe responder. Pareceu-me que agora sim valia a pena gritar, juntar a minha voz a outra voz, o meu grito a outro grito.
Não vejo nela qualquer anti-americanismo primário, como agora já se diz, nem nenhum interesse escondido em defender qualquer Saddam. Não vislumbro nela quaisquer vestígios de objectivos políticos ou visibilidade pessoal, qualquer gosto por um protagonismo oportunista nem o ridículo de qualquer falsa modéstia.
O que eu vejo é o atrevimento de um povo modesto, humilde, mas com a coragem de colocar, claramente, o dedo nas feridas. É o universo de verdades que fica exposto. É a forma tão simples de destroçar o argumento bélico. É a demonstração clara da demência que se apodera dos poderes. É o carácter pedagógico de toda a mensagem.
Meu caro Mia Couto,
agora que a ONU está pelas ruas da amargura, a Comunidade Internacional consolidou a sua inoperância, de que forma é que os povos de todos os países poderão usar a sua arma de construção massiva? Agora que a lei da selva está cada vez mais legitimada como é que os povos poderão derrubar os ditadores, onde se inclui o sr. Bush, os que continuam a existir, os que teimam ainda em usar a força para se manterem nos pedestais que para si mesmos criaram?
A história mostra-nos quem nela fica e os chefes guerreiros abundam nela e enchem-nos de orgulho. Ghandi só houve um e foi assassinado.
Para mim ainda resta uma hipótese, só uma. Deixo-a consigo porque é escritor, porque é um escritor de um país pobre, porque teve um sonho, como outro sonhador também já tivera, e através dele resolveu enfrentar o Mundo inteiro, porque me emocionou e me abriu os pulmões para gritar, por isso e porque confio em si, eu digo-lhe: a poesia! Ela tem que ser ensinada nos primeiros fôlegos de vida, com o primeiro leite materno, a partir dos primeiros bancos da escola. A todas as crianças do mundo.


Andrea Diegues" 


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Leonor...

Leonor,

Escrevo-te sem diminutivos, da mesma forma como sou, sem atalhos, sem esconderijos, da mesma forma como te admiro, enorme, lutadora, ensinante.

Conheci-te através do teu pai e, apesar de nunca te ter tocado, quase consigo saber o teu cheiro, a suavidade da tua pele, a beleza que tu encerras. Conheci-te através dos gritos de força, de ajuda, de amor. Conheci-te através de mim...porque eu própria sou mãe...conheci-te através do desejo de sucesso.

Gostei de ti no imediato. Como se gosta de todas as coisas pequenas que movem mundos grandes, que encimam batalhas fantásticas, que se assumem como líderes de vida.

Gostei de te ver...escondida no meu mundo...gostei de pensar em ti como uma vitória de todos.

Hoje, Leonor..., escrevo-te para tapar o buraco que se abriu na tristeza de te saber partir...porque também levas um pouco de mim, da minha ansiedade, da minha chuva, da minha vontade. 

Escrevo-te para acalmar a água que inunda a minha noite...e para gritar-te, do universo de pessoas que arrastas contigo, da alegria de saber que existem pais como os teus, vivendo com o corpo num coração, cerrando punhos para o futuro, lutando contra a saudade feroz.

Escrevo-te sem diminutivos..., da mesma forma como te reconheço audaz, maravilhosa, força de vida. Força de alma. Força de nós. Força de sempre.

Leonor...neste coração que é o meu...vives, sempre. 

Até breve.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A casa de banho, as partilhas, ajudas e outros acontecimentos!"

A chuva tem corrido rios e mares de turbulência feroz. Tem atingido, física ou metaforicamente, gente, muita gente. Gente em forma de pessoas verdadeiras. Daquelas que choram e riem, que se alimentam, ou não, que suam o seu trabalho ou a sua ausência. Pessoas reais. Aquelas que existem...mas que para quem governa o destino deste país são apenas números. Números que não representam famílias ou sacrifícios (a não ser que seja importante que se assumam assim... e se assim for...lá teremos um qualquer importante membro de governo com a cabeça enfiada num boné a cumprimentar...essa gente).

A chuva tem corrido rios e mares e eu tenho estado a observar. Muitas vezes a tentar salvar da água aquela gente que sinto poder ajudar. Vidas. Desafios. Glórias.

Hoje chegou o sol. As crianças ganharam cores de liberdade e vinham mais cheias. Mais abertas. Mais reveladoras.

O André estava na casa de banho com as muletas do Jaime. Estava a ajudar o amigo que partiu uma perna e que tentava lavar as mãos. É claro que umas muletas ali à mercê...é coisa para se aproveitar, tendo em conta que não é todos os dias que se pode usufruir de umas muletas, gozando de plena saúde física!

Muito rodava a muleta e usava ambas para desafiar saltos e metas improváveis estipuladas de si para si.

"Que estás tu a fazer com as muletas, rapaz?" - que estava a ajudar o Jaime!

Lógico...pensei eu, excelente resposta.

"Ele estava era a portar-se mal!" - disse uma voz aguda que entretanto se ajoelhara aos meus pés, à porta da casa de banho dos rapazes e espreitava com os olhos muito abertos.

"Mas ele porta-se mal?" - perguntei...e olhei de imediato para o Jaime que continuava a lavar as mãos como se estivesse numa realidade paralela...e nada daquilo fosse com ele.

"Ui!...Ui, ui!" - disse a voz...cuja dona era uma miúda que tem duas luas no lugar dos olhos...e um sol como sorriso.

Desatei a rir à gargalhada e ela continuou:

"Sabes...este rapaz... Já foi meu namorado. Mas agora...namora com a irmã da minha melhor amiga. Hum hum..."

Olhei para o André...estava todo corado, muito comprometido na sua posição de "ajudante da muleta" e algo envergonhado por estar a ver a sua vida sentimental...ali toda desventrada em plena casa de banho!

Dei um passo no sentido do miúdo, o Jaime levantou o olhar e começou a retirar toalhetes para enxugar as mãos....como se não houvesse amanhã, enquanto o André...corava e espantava-se com aquele disparate de emoção...

"Como se chama a tua namorada, irmã da melhor amiga....aqui da Carolina?"

"Manuela" - quase sussurrou...

"Manuela?!? AI QUE NOME TÃO GIRO! Gosto muito! Boa escolha..."

Foi um alívio...para o André, cuja namorada foi honrada até ao fim do mundo, para o Jaime, cujas mãos ficaram lavadas e enxugadas por um mês ou mais...e para mim, que ganhei o dia com a revelação amorosa e com a simplicidade do momento.

A Carolina? Seguiu o seu caminho que tinha uma corda para ir abanar e saltar todo um abecedário! E "a casa de banho é lá sítio para se estar a conversar?"...