Tenho estado deste lado da chuva...retirada por medo, por ansiedade, por desnorteio.
Tenho-me escondido entre gotas e lágrimas de sal e de mágoa.
Tenho espreitado a vida aos poucos, incoerentemente amarrada em mim, sufocando gritos de raiva, de incompreensão, de má sorte, de impotência.
O meu irmão caiu num sono profundo, numa cama de hospital....perdido numa dor que não consegue explicar. O tempo arrasta-se e consigo traz o peso das horas, da saudade, do pânico.
Hoje o dia mudou.
Hoje chegou até nós...
...saiu do outro lado do silêncio.
E eu também.
Talvez seja um atrevimento humilde, mas com a coragem de colocar, claramente, o dedo nas feridas. Talvez o quase quase do universo de verdades que fica exposto.Talvez o ponto em que cada palavra se atreva a explorar o momento e a concretizá-lo aqui. Este é o mote, o resto viaja no tempo. (todos os nomes e datas são alterados por motivo de salvaguarda da privacidade dos mesmos) Mastodon
domingo, 28 de outubro de 2012
quarta-feira, 20 de junho de 2012
o dia dos sonhos perdidos...
A chuva não morreu em mim... mas tenho andado presa nos detalhes da luta que a vida encerra, todos os dias. Senti saudades de me partilhar e hoje decidi dividir-me convosco...de olhos bem abertos, saboreando o fresco que a água da chuva arrasta consigo.
Aguilar (2001) escreveu, referindo-se à criança, que o desenvolvimento do imaginário na representatividade do quotidiano, de si e dos outros, como ferramenta de busca da compreensão do mesmo, é essencial para o desenvolvimento pessoal e social do ser humano.
E assim é... e assim se reza a história a cada minuto.
Cada Educador guarda memórias de pequenas atitudes que observa em contexto... e é um punhado dessas histórias que aqui trago. Apresento-as e desprendo-me da reflexão. Essa, deixo-a para que cada um a tome e use como bem entender.
1.
(A brincar no espaço da "casinha"... - João e Inês, 5 anos):
"- Olha, Inês... eu era o teu marido, chegava bêbedo a casa e agora dava-te porrada, está bem?..."
2.
(Três amigas, 4 e 5 anos, a conversar sentadas numa mesa):
"- Bem...agora vou andando - diz a Joana, colocando a mala no ombro - ...vou até ao Centro d'Emprego, tratar do desemprego."
3.
(Conversa sobre profissões e sobre o que ser quer "ser" quando se for grande - Paulo, Tiago e Filipa):
"- Ai, quando eu for grande...vou trabalhar no RSI!"
Aguilar (2001) escreveu, referindo-se à criança, que o desenvolvimento do imaginário na representatividade do quotidiano, de si e dos outros, como ferramenta de busca da compreensão do mesmo, é essencial para o desenvolvimento pessoal e social do ser humano.
E assim é... e assim se reza a história a cada minuto.
Cada Educador guarda memórias de pequenas atitudes que observa em contexto... e é um punhado dessas histórias que aqui trago. Apresento-as e desprendo-me da reflexão. Essa, deixo-a para que cada um a tome e use como bem entender.
1.
(A brincar no espaço da "casinha"... - João e Inês, 5 anos):
"- Olha, Inês... eu era o teu marido, chegava bêbedo a casa e agora dava-te porrada, está bem?..."
2.
(Três amigas, 4 e 5 anos, a conversar sentadas numa mesa):
"- Bem...agora vou andando - diz a Joana, colocando a mala no ombro - ...vou até ao Centro d'Emprego, tratar do desemprego."
3.
(Conversa sobre profissões e sobre o que ser quer "ser" quando se for grande - Paulo, Tiago e Filipa):
"- Ai, quando eu for grande...vou trabalhar no RSI!"
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Gosto do meu rabiosque...
Li há uns dias, quando passava os olhos por uma das apelidadas "revistas cor de rosa", que uma rapariga (perdoem-me não ter memorizado quem seria, ou o que fazia... que estas levas de "famosos" é tão espontânea que se gasta em si mesmo), afirmou: "GOSTO DO MEU RABIOSQUE!". Directo. Conclusivo.
Apresso-me hoje a ter necessidade de escrever que também eu gosto do meu rabiosque, das minhas pernocas, das minhas mãos, dos meus olhitos, do meu nariz...mas, sobretudo, gosto da minha BOCARRA! Gosto dela porque sim! Que quando decide abrir-se, não é para ingerir alimentos em fartura ou bebida em quantidades assinaláveis, mas para gritar o que a alma vai dedilhando, reflectindo, revoltando. Invariavelmente, a minha bocarra funciona por oposição à boquinha de outros que, ou não percebem muito de anatomia, ou de facto a têm em modo disfuncional e, quando a põem a trabalhar, só sai MERDA - a mesma que deveria sair-lhes, só e apenas, do rabiosque!
Para o bem de todos. E com o agrado da maioria.
Alguém que explique isto ao Sr. Ministro da Educação, sim?
A minha bocarra agradece.
Apresso-me hoje a ter necessidade de escrever que também eu gosto do meu rabiosque, das minhas pernocas, das minhas mãos, dos meus olhitos, do meu nariz...mas, sobretudo, gosto da minha BOCARRA! Gosto dela porque sim! Que quando decide abrir-se, não é para ingerir alimentos em fartura ou bebida em quantidades assinaláveis, mas para gritar o que a alma vai dedilhando, reflectindo, revoltando. Invariavelmente, a minha bocarra funciona por oposição à boquinha de outros que, ou não percebem muito de anatomia, ou de facto a têm em modo disfuncional e, quando a põem a trabalhar, só sai MERDA - a mesma que deveria sair-lhes, só e apenas, do rabiosque!
Para o bem de todos. E com o agrado da maioria.
Alguém que explique isto ao Sr. Ministro da Educação, sim?
A minha bocarra agradece.
segunda-feira, 19 de março de 2012
...o Pai...
Há tanto que não me partilho aqui, que não me revelo a meias, que não amasso reflexões... se bem que a chuva tenha sido intensa, ou o calor do corpo tenha vindo a arrastar-me nas horas do dia.
Hoje regresso...que a chuva da alma foi mais forte.
Entrou na sala quase como de costume. O cabelo em perfeito desalinho, os atacadores soltos...os pés a arrastarem o peso dos seus nove anitos, o sorriso a fugir-lhe pelo lado direito do lábio.
Entrou sem óculos e com a prenda do Dia do Pai na mão - aquela que espelha o amor incondicional e dá forma aos sentidos e sentimentos lambuzados.
"Onde tens os óculos, Catarina?", que não tinha...que se havia partido uma lente...
"Mas ontem? Oh que pena.... e olha...que tens na cara?"
"Aqui?" - levou a mão direita à face - "não sei...deve ter sido ontem, também... O meu pai deu-me uma chapada. Hoje vai correr tudo bem...já lhe fiz esta prenda e tudo."
Estava toda arranhada junto ao olho...com uma nódoa negra enorme e com a vergonha que caracteriza toda a criança que é maltratada com frequência.
Baixou os olhos, corou e voltou a repetir..."hoje vai ser melhor...que vai receber uma prenda minha...".
E eu abracei-a, no abraço dos que se dividem e segredam. E revoltei-me, na revolta dos mortais que não entendem a agressão como meio ou fim. E chorei o silêncio que ficou quando saiu e me atirou o mais terno dos beijos.
"É na educação dos filhos que se revelam as virtudes dos pais." (Coelho Neto)
Hoje regresso...que a chuva da alma foi mais forte.
Entrou na sala quase como de costume. O cabelo em perfeito desalinho, os atacadores soltos...os pés a arrastarem o peso dos seus nove anitos, o sorriso a fugir-lhe pelo lado direito do lábio.
Entrou sem óculos e com a prenda do Dia do Pai na mão - aquela que espelha o amor incondicional e dá forma aos sentidos e sentimentos lambuzados.
"Onde tens os óculos, Catarina?", que não tinha...que se havia partido uma lente...
"Mas ontem? Oh que pena.... e olha...que tens na cara?"
"Aqui?" - levou a mão direita à face - "não sei...deve ter sido ontem, também... O meu pai deu-me uma chapada. Hoje vai correr tudo bem...já lhe fiz esta prenda e tudo."
Estava toda arranhada junto ao olho...com uma nódoa negra enorme e com a vergonha que caracteriza toda a criança que é maltratada com frequência.
Baixou os olhos, corou e voltou a repetir..."hoje vai ser melhor...que vai receber uma prenda minha...".
E eu abracei-a, no abraço dos que se dividem e segredam. E revoltei-me, na revolta dos mortais que não entendem a agressão como meio ou fim. E chorei o silêncio que ficou quando saiu e me atirou o mais terno dos beijos.
"É na educação dos filhos que se revelam as virtudes dos pais." (Coelho Neto)
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
E a pele...de que cor é...?
A nossa sociedade, apesar do esforço da Escola, tende a projectar nas suas crianças estereótipos de todo o tipo, estigmas e comportamentos, que apenas revelam ignorância ou são, em grande parte, resultado de fobias generalizadas que se arrastam no tempo e sobrevivem até aos dias de hoje.
Uma delas, que vive no espaço escola e se arrasta para o recreio é a dicotomia "branco preto", normalmente suavizada com a expressão "de cor".
A frase, "aquele menino de cor...", quase sempre me arranca a questão, "ai, mas há pessoas incolores?...Coitadas!", provocando, invariavelmente, muita confusão no contexto da conversa, esclarecendo-se quando remato com "é que eu não sou castanha como o chocolate de leite...mas incolor também não...e vocês?".
E a partir disto...viaja-se nas diferentes tonalidades da derme, brinca-se com as palavras e aproveita-se para trazer para a sala de aula o mundo plural, tal como ele deve ser visto e respeitado.
Hoje foi um dia assim...
Estavam os mais pequenitos a pintar um desenho de um rapaz de boné com uma bola debaixo do braço, depois de terem sido "massacrados" com a leitura do pequeno texto...auxiliados pelo 'Quadro Silábico', quando o Pedro me pergunta:
- Professora, pinto o menino de castanho...ou de cor de pele?
"Aqui vamos nós", pensei e perguntei-lhe qual era a diferença.
- Então...castanho...é castanho como as árvores....cor de pele é isto... - e levantou um lápis de um tom rosa pálido, feio...
O Hugo rematou:
- O Pedro quer saber se o menino é branco ou preto....é isso que ele quer saber.
- De cor... não se diz preto! - avisou a Inês.
O Xavier, um dos miúdos mais calados que alguma vez conheci levantou-se...pegou na mão de um colega que é negro e, encostando-a ao seu estojo preto, gritou:
- Preto...É O MEU ESTOJO! A mão do Ricardo não é preta...é castanha...porque a pele dele é CASTANHA!...O castanho também é cor de pele, como é a cor dos olhos ou dos cabelos. - E sentou-se, atirando toda a sala para o silêncio que qualquer reflexão deverá sempre produzir.
E surgiram meninos de tantas cores...como as bolas que levavam debaixo dos braços.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
...não sou um terror, pois não?...
Hoje chegou um miúdo novo...
Desde o início da semana que ouvia falar dele - que era um vândalo, que na outra escola se enfiava debaixo das cadeiras e uivava, que dizia palavrões inimagináveis (apesar de não saber bem o que isso quererá dizer, parece-me aliciante e intimidatório!), que batia na professora, nos colegas, nas auxiliares de acção educativa.
Primeiro ano...que no final do primeiro período é transferido de escola alterando toda a dinâmica social e escolar do miúdo. Para se tomar uma medida destas, pensei, deverá ser porque o miúdo será, MESMO, um terror.
Hoje chegou um miúdo novo que, como qualquer outro miúdo se misturou na confusão orientada do recreio, dos lanches, da emoção da novidade, das regras de novas salas, novas caras, novos sorrisos.
Não o distinguia entre os demais, tal não era o usual bulício que caracteriza o momento de desforra, de suor, brincadeiras e gritaria, na hora do intervalo.
Fui para a minha sala, para o meu reino e a porta abriu-se a medo. Pensei... "aqui vem ele, Andrea, assume o teu ar nº31, não sorrias...". E o mundo desabou.
Com pouco mais de 1,30m, o monstro (como já havia ouvido) o Miguel sorriu-me com a cara mais bolachuda e redonda que já vi, e com umas "orelhas de abano", uns óculos redondos que escondem uns enormes e pestanudos olhos castanhos, com as suas sapudas mãos, abraçou-me e disse:
- Professora, vais ensinar-me a ler, não é?
Que sim, mas que ele teria de fazer um esforço de gigante para se concentrar, trabalhar, ouvir e falar nas alturas certas, se havia compreendido?
- Sim... que esta escola é para os meninos grandes e eu quero ser grande como eles.
E ali estive...animadíssima, e ele comigo. Meigo, afável, simpático, brincalhão, respeitador. Sem qualquer problema cognitivo, apreendeu muito bem os conceitos, as normas, o jeito delicioso de se ser encantador - criança. Pouco autónomo, é certo, muito curioso...carente o quanto baste.
- Pronto, Miguel...por hoje é tudo. Segunda-feira...continuamos e vamos ser os maiores, boa?
- Sim... mas, professora, podes dar-me um abraço?...É que eu não sou um terror, pois não...?
- Não, meu amor - escondi a emoção com o queixo apoiado na sua cabecita cheirosa - tu és especial.
Rasgou-me a alma, conquistou-me e sorriu.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
apagas-me a lua, sff...?...
...resta saber quem aquece a noite... quem beija o pesadelo... quem amarra o grito de fome...
(esta imagem cruzou-se comigo na internet e transporta com ela toda uma dimensão que exige reflexão e a mais cuidada abordagem... deste lado da chuva gostaria de vos "ler", lanço-vos então esse desafio: pensem nesta frase, observem a textura da parede, a forma como está redigida e...escrevam. Por aqui...prometo estar atenta e alerta para cada uma das vossas palavras.)
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