terça-feira, 5 de abril de 2011

A cru. Sem mais demoras.

Há questões que ultrapassam os limites da razoabilidade, roçam quase o imaginário e, quando se tornam reais, atiram-nos para a perplexidade. Depois vem a revolta. A negação. Por vezes um sorriso, um abanar da cabeça.
Há questões que se erguem como bandeiras e surgem como alarmes de que a coisa não está a correr bem… e não está minha gente, não está.
Desse lado da chuva não sabem o que deste lado assisti.
Na passada sexta-feira, uma jovem foi ao hospital de Setúbal, aquele que é público, o que presta serviços públicos, repito, para efectuar uma mini cirurgia – retirar uns sinais que estavam a espalhar-se pelo corpo, conselho médico, claro. Vários sinais, várias incisões.
Acabada a intervenção dizem à jovem: “Não temos pensos para lhe colocar, dirija-se à farmácia e compre-os, sim? Depois aplica-os ou pede a alguém que os aplique…”.
Assim. A cru. Sem mais demoras.
Ora vamos lá ver isto devagarinho….
No Hospital Público não há pensos para colocar aos pacientes… ter-se-á  que racionalizar a coisa… estão a ver? Todos a contribuir, o mote deste momento. E vai na volta, esta mini cirurgia até seria coisa menor. Aquelas devem ser “feridas” que aguentam… penso eu, e que provavelmente se sagrarem, ou se criarem algum incómodo, por favor…vejam o “walking dead”, eles andam muito mais feridos e não têm a Fitch à perna, E ISSO SIM, É QUE É IMPORTANTE – O RATING!
Foi, então, cobrindo como podia as feridas, que se dirigiu até à farmácia… a pé, já que não tem carro, nem ninguém da família tem, comprou os pensos – responsabilidade de um serviço público para qual a jovem trabalhadora desconta há algum tempo – e colocou-os.
Não sabia se haveria de rir… se haveria de chorar.
Nem eu. Que vergonha…
Pergunto, para onde caminhamos? Que nome temos? Que espécie de pessoas nos tornámos? Com quem lutamos, minha gente? Com quem falamos, minha gente?
Do outro lado da chuva…seres sem cara, sem pele, sem carne, sem palavra.
E outras atrocidades se revelam todos os dias…
Assim. A cru. Sem mais demoras.

1 comentário:

Alexandre Moisés Mendonça e Araujo disse...

E eu que achei que essas coisas aconteciam só aqui no Brasil...
Não sei se rio ou se choro!
Abraço brasileiro!