sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Uma mulher do antigamente!


É um lugar comum ouvir-se que as crianças dizem tudo o que lhes vai na alma, que são sinceras, que a verdade não escolhe máscaras. Poderá ser assim, embora por vezes sinta que algumas pessoas prefeririam que a boca de uma criança optasse por utilizar curvas em vez de rectas, de modo a que a realidade ficasse adulterada, não totalmente revelada, dissimulada. Que a dureza dos dias, não está para se sobrecarregar com ninharias que apenas farão sofrer alguns.

Eu, que trabalho com crianças - sim...que os meus verdadeiros parceiros, lado lado, são os miúdos - sei-os na sua maioria sempre prontos a opinar, a chamar o sol para a sala de aula, a confrontar tudo e todos, contra calúnias, injustiças e afins. E é isto que me apaixona nos meios palmos de gente... são mais autênticos, mais reais, mais espontâneos! Deste lado da chuva, calço sempre as meias de criança, coloco o barrete do Peter Pan... e vou sobrevoando a semana, encontrando a riqueza em cada memória.

Soltas as gargalhadas, cá vai o episódio que fez as delícias do meu dia...

Entrou o António, cumprimentou-me e disse: "não tenho TPC, professora... mas ando cá com umas dúvidas..." - respondi-lhe que já o ouvia e continuei ajudando por ali, na minha azáfama do costume, beijando quem acerta, desafiando uns e outros, distribuindo abraços, encorajando, chamando a atenção... Nisto, reparo na carita do António, boca entreaberta, olhos fixos...em mim.

"Então puto lindo, vem ao meu colo e conta-me tudo!" - correu, sentou-se, esfregou o nariz, depois sorriu e bombardeou "tu és uma mulher do antigamente, professora?!".
Gelou-se-me o sangue nas veias... "mulher do antigamente", de modo egoísta pensei por momentos em mim... estaria envelhecida? Seria a minha roupa? O meu cabelo branco que teima em espreitar?...

"De antigamente? De antigamente?.... Oh meu grande malandro..., de antigamente como?!" - tentei disfarçar que pisava terreno de manteiga ou que os meus receios me toldavam a capacidade de interpretação. 

O António, naquele jeito maroto, com cheiro de pão com manteiga, saiu-me do colo e saciou a sagaz curiosidade de todos os que ali estavam: "Sim! Se és uma mulher do antigamente....? Que o meu avô disse-me ontem à noite, quando estávamos a ver umas senhoras a dançar num video clip, que já não havia mulheres como antigamente, que eram umas senhoras... SE-NHO-RAS... devia ser de levarem nas trombas, quando faziam disparates...", e continou..."és do antigamente, não é?..."

Ora bem... levantaram-se duas questões fundamentais, que enunciarei:

1) Se não assumir que sou "do antigamente", depreenderá ele que sou uma debochada, porque sou de agora, já que é assim que ele define a diferença entre as mulheres? 

2) Se, por outro lado, assumir que sou do antigamente, serei uma martirizada dos maus tratos, mas que isso até terá sido bom, dado ter, efectivamente, feito de mim...uma SE-NHO-RA! ?

Decidi, numa fracção de segundos, passar para ele a responsabilidade da resposta, perguntando-lhe o que considerava ele... Seria eu de agora....?

"Professora, o meu avô se te visse ia dizer que tu és como do antigamente, mas as mulheres que ele fala, já são velhotas, a Dona Josefa do café ao pé de mim, coitada... Mas tu não levas porrada, pois não?..." - a verdadeira preocupação vinha ao de cima, a professora como figura respeitada que deve ser, também nunca poderia ser fisicamente violentada, nunca!
Isto, em dia Internacional pela Eliminação da Violência contra Mulheres, como diz o meu pai, caiu que nem ginjas! 

Estabeleceu-se de imediato o foco de toda a intenção educativa...apesar de uma sala de apoio ao estudo estar longe de ser o espaço ideal para o aprofundamento de questões desta natureza. Em boa verdade,  homem, mulher, masculino feminino, não são conceitos estritamente ligados às características anatómicas, nem uma questão meramente genética. Esta dicotomia assenta, fundamentalmente, nos códigos, nas informações, nos estereótipos que são fornecidos nas condicionantes socioculturais em que um indivíduo nasce e se desenvolve. 

E aqui, poderei sempre ter uma palavra a dizer. Sem levar nas trombas.



5 comentários:

Margarida disse...

Sabes, fou muito bom reencontrar-te, mesmo que seja só aqui na realidade virtual!
Os teus alunos têm muita sorte em ter-te. Espero que um dia os meus filhos tenham a sorte de encontrar um formador do teu calibre...
Beijinhos

Andrea Diegues disse...

Minha querida amiga,

o gosto pelo reencontro é mútuo! Gosto-te e admiro-te de forma muito especial. Como uma tutora, como uma orientadora, como uma mana mais velha. O que aprendi contigo...

Quanto aos rasgados elogios...obrigada.

Ester Arauo disse...

Adorei. És a minha sobrinha linda.
Beijinhos

CoisasDaGaja disse...

Foi muito bom ler este texto. De facto, encaixa na perfeição na data que se comemorou. Gostei da forma como lidaste com o assunto.
Mais ainda, quando dizes que esse não é o espaço ideal para aprofundar ou esclarecer questões desta natureza tenho que discordar. A escola enquanto instituição é o complemento da educação em casa e vice-versa. E deveria ser assim...

És uma "educadora" fantástica!

E sim, a professora enquanto figura respeitada não pode ser violentada. O raciocínio do teu menino que cheira a pão com manteiga (adorei!) está certíssimo!

:)

Andrea Diegues disse...

Obrigada pelo teu comentário! Tens razão no que toca à observação que à escola compete o complemento educação dada em casa, mas referia-me especificamente às características que pautam uma sala de estudo, cuja dinâmica é posta em desenvolvimento durante uma hora e meia por dia. ;)

Um abraço,