sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Diante dos nossos olhos...

O recreio costuma encher-se de brincadeiras várias. O barulho entra-se-nos alma dentro e lá permanece se quisermos ouvir com o coração os gritos da imaginação. 
As crianças vivem os seus pedaços de vida, minuto a minuto, e a cada passo arrastam a imaginação por entre saltos, gargalhadas, gritos, corridas, abraços e partilhas. Não entende cada coisa quem verdadeiramente quer, mas quem realmente pode...ou quem ainda consegue lembrar-se da magia de ser-se criança.

Deste lado da chuva costumo observar o momento do recreio...que me é oferecido, como se de um tesouro se tratasse. Costumo mesmo pensar que de um lado ficará a observação razoável de quem já palmilhou alguma vida e sobre a qual reflecte a todo o instante e, de outro, a capacidade de fantasiar em aberto, livre, despretensiosamente, vivendo castelos de sonhos, cavalgando nas costas de heróis, morrendo mil vezes, vivendo outras mil. Entre um e outro situa-se aquela a que chamo de zona de conforto, que me permite viajar sem ser vista, imaginar sem receios e esconder-me em refúgio reflexivo...tudo em meia hora de acontecimentos.


Hoje voltei a espreitar o recreio... Mas hoje estava cheio de alegria de adultos que brincavam com as crianças. E dançavam. E sorriam. E reconheciam-lhes a fantasia. Diante dos nossos olhos erguia-se um mundo colorido, magnífico, vivo, cheio!

Hoje é o momento em que os adultos conseguem ver tudo aquilo que as crianças imaginam durante o ano inteiro. Apenas porque hoje elas vêm cobertas de adereços que lhes limitam a imaginação, mas orientam cada "pessoa crescida", que com elas interage, no sentido de as reconhecer encarceradas na fantasia de todos os dias.

Hoje a Luana disse: "Vês professora Joaquina? Eu hoje sou a princesa do outro dia, aquela que te falei que andava a brincar ao faz-de-conta... Agora já sabes quem sou...". A "pessoa crescida" olhou, sorriu...e rematou a conversa alegando que "com este vestido já reconheço a princesa...que linda! Mas sem nada, não estava mesmo a ver...como querias que soubesse? Entendes?". A miúda olhou-a...e continuou a corrida entre a gritaria do pátio.

Eu...fechei a janela e pisquei-lhe o olho, num gesto de cumplicidade assinado para sempre...no preciso momento da passagem à fantasia de se ser, quem se quiser.

A eterna luta. De um lado a imaginação do tudo, com nada, do outro o entendimento do nada, com tudo.

Jean-Jacques Rousseau disse um dia que "a infância tem as suas próprias maneiras de ver, pensar e sentir. Nada mais insensato que pretender substituí-las pelas nossas." Antes compreendê-las, antes deixá-las existir, antes observá-las em silêncio. 

Tão somente...antes lembrar de como se apresentava o mundo, quando éramos crianças.


2 comentários:

Anónimo disse...

Também vivo junto a uma escola e todos os dias me surpreendo com elas, as crianças...Acho q cada vez mais, nós, aprendemos com elas e ño contrário. Parabéns pelo blogue, gosto muito dos textos, bem escritos e muito apelativos. Bem haja

Andrea Diegues disse...

Obrigada pela sua opinião e respeito.

Passe por cá, sempre.

Um abraço.