segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

À menina dos pés frios...

Hoje esteve muito frio...

Pode ter sido deste lado da chuva, apenas..., mas senti-o de forma tão intensa que viajei no tempo e me recordei de um episódio vivido num contexto escolar, ainda era eu aluna do ensino superior e traçava os primeiros passos neste desafio que é a Educação. Deixo-vos esse pedaço de tempo, essa delícia roubada do baú do esquecimento, esta reflexão triste.

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À menina dos pés frios…

Retive o meu olhar em baixo…não sei por quanto tempo assim estive fazendo força para não chorar, não terá sido muito é certo, mas foi o suficiente para ouvir dentro de mim o grito da incompreensão, aquele que arde, que faz o coração bater mais forte e retira a força de um corpo. Esse.
Tinha saído da sala à procura já nem sei de quê e, a caminho de algum sítio da escola, passei na entrada. Uma miúda, de uns oito anitos, batia com os nós dos dedos na porta envidraçada pedindo para entrar, “tenho frio”, dizia. Estava muito frio, falo daquelas manhãs em que, quem muito cedo tem de sair de casa, encontra o carro coberto de uma fina camada de gelo. Aquela criança ali parada, com os pés sem meias, de sandálias calçadas, espreitava por entre o vidro embaciado pela sua respiração, a azáfama característica de uma escola grande e solicitava que a abrigassem. Retive o passo… e esqueci o que ia fazer, o meu primeiro impulso seria abrir a porta, mas é claro que se escrevo este texto, é porque algo foi diferente, algo confrontou a minha ideia de Escola como porto de abrigo, casa de humanização, com gente e sentimento, Escola de mão aberta para dar, receber, acolher. Algo me fez sentir vergonha de ali estar naquele momento.
 “Tu só entras à uma, são onze e meia…”, falou a voz de quem por direito guarda a entrada, uma mulher grande, de cachecol enrolado à volta do pescoço para que pareça que não o tem, em completo contraste com o frágil corpo da menina. Olhei-a... enquanto ela aplicava a sua sentença, “não podes entrar, põe-te ao sol, logo aqueces!”, rodou a cabeça e continuou a vigia.
E eu ali estive a ver a miúda dos pés frios, a afastar-se rumo ao pátio meio iluminado pelo sol de Inverno. Baixei os olhos, tranquei os lábios e fiz força para não chorar.
Ainda hoje não me lembro porque ali passei, o que ia fazer, porque não estava dentro da sala de aula. Ainda hoje procuro desviar o olhar da menina dos pés frios, ainda hoje interrogo a decisão da mulher grande.
Hoje, penso ser importante encarar aquele momento e reflectir, não para ficar agarrada a considerações nostálgicas do que foi ou do que poderia ter sido, mas para poder fazer a leitura necessária, utilizando a neutralidade que só uma visão temporal nos pode dar. Em todo o caso, só através dela poderemos conhecer melhor o presente e quem sabe, participar num futuro diferente, um futuro sem vergonha ou lágrimas, com crianças de pés e alma aquecidos pela compreensão das pessoas grandes, como eu."
 

2 comentários:

Andrea Diegues disse...

Este texto foi escrito...há 6 anos. Parece que foi ontem, infelizmente.

KNOPPIX disse...

Infelizmente, a desumanização da nossa sociedade em vez de regredir, parece que aumenta cada vez mais, a humanidade parece que surge por obrigação em determinadas alturas do ano, como se fosse uma forma de as pessoas se desculpabilizarem pela sua indiferença pelo sofrimento alheio.

Vim aqui pela 1ª vez e fiquei fã deste Blog, parabéns, votos de um excelente 2012 :)